HISTÓRIA

ONDE E QUANDO TUDO COMEÇOU....

O ANTES

Na década de 20, as duas academias existentes em Santarém - a do Liceu Nacional Sá da Bandeira e a da Escola de Regentes Agrícolas, passavam o tempo em rixas, embora muitos dos alunos, de uma e outra, não concordassem e tivessem, por sua vez, boas relações.

 

Por essa altura, todo o estudante que quisesse praticar futebol tinha que o fazer através de um dos clubes existentes, no caso o Sport Grupo Scalabitano “Os Leões”. Acontecia que nesse clube pontificavam os senhores da cidade, tais como o Dr. Ramiro Nobre e seu irmão Mário, o capitão Mota Carmo, comandante da G. N. R., Joaquim Garcia, grande proprietário, Adélio Paula e muitos outros. Como tal, os estudantes só eram utilizados quando algum dos senhores se lesionava ou quando se previa um adversário difícil, o que aconteceu com alguns desses estudantes que, embora  fossem bons jogadores, só eram utilizados nessas circunstâncias, casos de Joaquim Gonçalves Isabelinha, José da Silva Louro, José Frutuoso, entre outros.

No ano lectivo de 1926/27, veio transferido da Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra para a de Santarém um aluno de seu nome Gil Sacramento Monteiro, que não só era um acérrimo defensor dos ideais académicos, como também era jogador da equipa de futebol da Associação Académica de Coimbra. Chegado que foi, deparou-se-lhe o quadro atrás descrito entre as duas academias, o que lhe provocou grande confusão. Entretanto, começou a encetar junto de vários colegas como Celestino Graça, Tancredo Heitor e Afonso Themudo, uma campanha de sensibilização no sentido da vantagem de as duas academias darem as mãos e constituírem, à semelhança de Coimbra, um clube de estudantes.

 

Ao mesmo tempo, foi tomando conhecimento com alguns alunos do Liceu, aproveitando para, igualmente, os sensibilizar, entre eles Valdemar Amaral, Afonso Costa e Joaquim Isabelinha. Deste trabalho, chamado “de sapa”, resultou que as duas academias levassem a efeito, “de per si”, uma assembleia de alunos onde seria exposto o que se pretendia.

 

Ao contrário do que seria de esperar, tal facto mereceu, de imediato, uma euforia enorme, o que levou a que fosse convocada uma assembleia magna das duas academias. Dada a expectativa na enorme comparência de estudantes, acabou essa assembleia magna, a maior reunião de estudantes de que há memória em Santarém, a vir a ter lugar no largo do Seminário (Largo Marques de Sá da Bandeira) em frente ao edifício (hoje) da Sé.

 

Foi, por assim dizer, uma loucura, com discursos inflamados, sendo logo ai nomeada uma comissão destinada a preparar os estatutos e o nome do novo clube, bem assim como a futura Direção.

 

É de justiça salientar que, para o sucesso de tudo isto, muito contribuíram os Presidentes das duas academias, da E. R. A S., Jose Suspiro, e do Liceu, Adriano Mendes Pereira, sendo igualmente de registar que, no final da Magna Assembleia, ecoaram por toda a cidade os gritos das praxes das duas academias, dando assim largas ao seu entusiasmo.

A FUNDAÇÃO DO CLUBE

 

Por proposta da citada comissão e aprovada pelas duas academias o dia escolhido para a sua fundação foi 5 de Outubro de 1931.

Por ironia do destino, a pessoa que mais trabalhou para tal desiderato, Gil Sacramento Monteiro, a tal já não assistiu, dado que entretanto acabou o curso e regressou a Coimbra e à sua Académica.

 

Outro tanto veio a acontecer com outro grande Brioso, o Dr. Joaquim Gonçalves Isabelinha, que entretanto também se havia deslocado para Coimbra para tirar o seu curso e onde se distinguiu como atleta da Associação Académica de Coimbra, razão pela qual não foi um dos sócios fundadores.

SÓCIOS FUNDADORES

Pela comissão então eleita aquando da Assembleia Magna, foi proposto em devido tempo e aceite, que os primeiros 100 (cem) inscritos como associados seriam considerados Sócios Fundadores, verificando-se o aparecimento, nessa categoria, de inúmeras alunas do Liceu, já que na Escola Agrícola, à data, só existiam duas.

Em_5_de_Outubro_de_1931_um_grupo_de_estu

O NOME DO NOVO CLUBE

Por proposta da comissão de tal encarregue, e por acordo entre as duas academias, o novo clube foi baptizado 

de Associação Académica de Foot-Ball. Porém, um ano depois, passou a ter o nome de Associação Académica de Santarém, o qual se tem mantido ao longo dos tempos.

O EQUIPAMENTO DOS ATLETAS

Dado que a academia da Escola Agrícola usava a cor verde e o Liceu a cor preta foi resolvido que, de início, o equipamento fosse constituído por camisola branca com uma faixa horizontal verde e os calções e meias pretos.

Um ano depois, e tal como aconteceu com o nome do clube, também o equipamento mudou, passando a camisola a ser preta, os calções azuis e as meias pretas com o canhão azul. Para símbolo a usar nas camisolas foi escolhida a Torre das Cabaças, cercada pelas letras A. A. S.

O primeiro equipamento dos atletas.png

A PRIMEIRA DIREÇÃO

Dado a academia do Liceu ser a mais numerosa, ficou estabelecido que o primeiro Presidente do Clube fosse o Presidente dessa academia, de seu nome Adriano Mendes Pereira, sendo os restantes cargos assim distribuídos:

- Secretario: José Suspiro, Presidente da E. R. A. S.;

- Tesoureiro: Roberto da Fonseca (E. R. A. S.);

- Vogais: Horácio Moreno Antunes (Liceu) e Raúl Marques de Sousa (E. R. A. S.).

 

Passado que foi mais um ano de mandato, surgiu um problema que levou à convocação de uma Assembleia-geral para discutir a situação vivida pelo Presidente da Direção.

 

Segundo se veio a verificar, o Presidente da Direção, que anteriormente à fundação da Associação Académica era sócio do Sport Grupo Scalabitano “Os Leões”, nunca se desfiliou desse clube, continuando sempre a apoiá-lo.

 

Face a tal facto, o mesmo foi demitido e irradiado, vindo o seu lugar a ser ocupado pelo representante da E. R. A. S., José Suspiro, conforme acordo previamente estabelecido. Infelizmente, este pouco tempo esteve no cargo, já que veio a falecer num fatídico acidente de moto no termo da Calçada do Monte (Rua Alexandre Herculano), sendo então substituído por Afonso Themudo.

Cartão_do_primeiro_presidente_da_A.A.S.

OS ESTATUTOS

Foi a mesma comissão, atrás referida, encarregue de elaborar os Estatutos pelos quais se passaria a reger a actividade do novo clube. Estes estatutos perpetuaram-se no tempo e, entre outros pormenores, é de salientar o enquadramento de todos quantos aderissem ao clube.

Assim, estabeleceram que os estudantes do Liceu e da Escola Agrícola que se inscrevessem como sócios ser-lhes-ia atribuída a categoria de Sócio de Direito. Aos estudantes provenientes de outros locais, ser-lhes-ia atribuída a categoria de Sócio Efectivo. Para todos aqueles que, não tendo sido estudantes mas quisessem ser associados, foi criada a categoria de Sócio Auxiliar.

Mais tarde, na época de sessenta, num aniversário da Associação a que compareceram o Exmo. Senhor Governador Civil de então, D. Bernardo Mesquitela, o Presidente da Câmara Municipal, Eng. João Noronha de Azevedo, o Reitor do Liceu, Dr. Joaquim Oliveira Jacob, o Director da Escola de Regentes Agrícolas, Dr. Duarte Caldas, a Madre Luísa Andaluz - Madre Superiora do Colégio Andaluz, Margarida Schiappa - Directora do Colégio de Sta. Margarida e bem assim a Directora do Centro de Línguas, pelo Sr. Governador Civil foi proposto que se levasse a uma Assembleia-geral, uma proposta no sentido de que todos os estudantes do concelho de Santarém fossem incluídos como Sócios de Direito. Levada a efeito a tal Assembleia, foi a proposta aprovada e inserida nos Estatutos uma Adenda com tal resolução.

Mais tarde, na década de noventa, levou-se a efeito junto do Governo de então, chefiado pelo Eng. António Guterres, uma “démarche” no sentido de se conseguir para a Associação o Estatuto de Utilidade Pública. Depois de uma tarefa árdua, lá se conseguiu tal desiderato, sendo os Estatutos publicados no Diário do Governo, conforme atesta um Diploma exibido junto de outros troféus no Salão Nobre.

Termos de posse 2.jpg

MADRINHA DA ASSOCIAÇÃO

Tal como acontecia com as duas academias, em que cada uma tinha uma madrinha, também aqui, tratando-se da junção das duas academias, normal foi que nesta associação o mesmo viesse a acontecer.

Recaiu a escolha na aluna do Liceu que já havia ofertado o estandarte, de seu nome Romana Fragateiro, filha de um senhor Juiz e irmã de um aluno da Escola Agrícola, que também se tornou uma lenda e que se chamava Arnaldo Fragateiro. Com muita pena nossa, vimos esta prática ser olvidada, deixando, assim, de ser uma referência em todos os actos solenes levados a efeito.

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O ESTANDARTE DA ASSOCIAÇÃO

O Estandarte em referência foi ofertado após a fundação por uma senhora, também ela estudante do Liceu, que logo se tornou na Primeira-dama da Académica.

A PRIMEIRA EQUIPA DE FUTEBOL

A_primeira_equipa_sénior,_1931.png

Dado que alguns estudantes que praticavam a modalidade tinham ingressado nos Leões, estes não permitiram que os mesmos viessem, logo após a fundação, defender as cores do nosso Clube.

Houve pois que recrutar, entre a massa estudantil, os que restavam e com eles formar a primeira equipa representativa da malta.

Foram eles: José Neto, Homero David, Serrão de Faria, Afonso Costa, Afonso Themudo, Luis Frazão, Raul de Sousa, Joaquim Albuquerque, Acácio, Jose Frutuoso e Rui Sabo.

 

Esta equipa utilizou, na altura, o primeiro equipamento, de camisola branca listada de verde e calção preto. Só a partir de 1932/33 passaram a usar a actual camisola preta e calção azul, sendo a equipa de então formada por Tancredo Heitor, Homero David, João Leite, José Amaral, Luis Bragança, Afonso Themudo, António Peralta, Carlos Faustino, José Louro, Celestino Graça e Francisco Freire.

Acontece que, neste lote de jogadores, não aparece desde início o nome daquele que viria a ser o Dr. Joaquim Gonçalves Isabelinha, dado que o mesmo tinha ingressado na Universidade de Coimbra em 1930, vindo a envergar a camisola da Académica dessa cidade e, pela mesma razão, não fez parte dos sócios fundadores, ocupando o n°. 102 e tornando-se, após o seu regresso a Santarém, um dos mais indefectíveis Briosos.

 

Como era de esperar, no primeiro jogo com o Carcavelinhos Futebol Clube de Lisboa, a Académica sofreu pesada derrota, vindo a vingar-se um pouco mais tarde, ao conquistar a Taça Junta Distrital de Santarém e a Taça Governo Civil do Distrito de Santarém.

A Académica acabou por ser derrotada por 1-0, com uma arbitragem escandalosa, o que levou a um grande sururu no final do jogo, a que só Celestino Graça conseguiu por cobro.

 

A final realizou-se em Santarém, entre o clube de Lisboa e o Sporting da Covilhã. Venceu este clube que ascendeu à Primeira Liga, enquanto o Carcavelinhos acabou por entrar numa fusão de clubes da qual nasceu o Atlético Clube.

É claro que a malta não perdeu a oportunidade de mimosear os adeptos do clube de Lisboa, não só apoiando o Covilhã como depois os mimoseou de todas as maneiras e feitios.

 

Esta hegemonia foi-se esbatendo, pois, ao contrário do que era de esperar, formando a equipa com alunos das academias da cidade, optou-se por trazer elementos que, embora se tornando verdadeiros amigos da Académica, levaram a um desinteresse dos que aqui existiam.

 

Tal facto originou a perda total dessa hegemonia, a qual só veio a ser recuperada, pela última vez, na época de 1946/47, em que se sagrou campeã, terminando nessa data a existência 

da categoria de seniores.

Fizeram parte dessa derradeira equipa de seniores os seguintes elementos: José Melro, Orlando Oliveira, Fernando C. Neves, Augusto Madeira, Humberto Oliveira, Grimoaldo Duarte, Pina, José Menaia, José Martins, Romão e António Cachado.

Mas algo estava latente na mística da Briosa. Eis então que Augusto Madeira, um dos sobreviventes da última equipa, lança mão da formação da categoria de juniores, já que se tornava impossível manter a de seniores, dado os estudantes acabarem cedo os seus estudos, quer no Liceu quer na Escola Agrícola.

 

O trabalho deste grande Brioso foi hercúleo e, partindo do nada, conseguiu formar equipas durante vários anos, que foram não só campeões distritais, como se bateram galhardamente nos campeonatos nacionais, contra equipas muito mais poderosas.

Dessas grandes equipas, são de destacar nomes como: António Maia, Luis Gameiro, António Júlio, Branquinho, João Ramiro, Pisco, Marreiros, Fonseca, Valente, António Taborda, Suspiro e Victor Herculano, entre outros.

Seguiu-se-lhes outra grande plêia de de praticantes como Henrique Dentinho, Valdemar Patrício, Jacob, Rui Lopes, Jaime Carvalho, José Carlos Cabelo, Domingos Ribeiro, Mário Silveira Ramos, José Pinheiro, Tozé Carvalho, Victor Rodrigues, Carlos Lourinho e Fernando Lourinho.

Após essas décadas de trabalho, Augusto Madeira achou por bem retirar-se, cabendo-nos a nós substitui-lo. Embora a massa humana não fosse tão rica, não se deixaram os créditos por mãos alheias, ao mesmo tempo que foi criado o escalão de juvenis.

 

Porém, poucos anos após, tivemos que abandonar, por razões profissionais que nos levaram para outras paragens. Mas a Académica era um alfobre de grandes Briosos.

É então que aparece um pequeno grande homem. Pequeno na estatura, mas grande na sua ação em prol da Briosa. Chamava-se esse homem Jorge Chaves que, tornando-se Director para o futebol, soube incrementar essa secção, criando vários escalões de praticantes e trazendo, de novo, o verdadeiro sentido da sua dimensão e dos seus ideais.

 

Foram épocas sucessivas de triunfos, fazendo reviver um passado distante e levando o nome da Académica de Santarém por essa Europa fora, enquanto em Portugal e em Santarém se realizavam os mais famosos torneios com as melhores equipas, ao tempo, existentes.

 

De salientar, igualmente, o trabalho entretanto realizado pelos treinadores de então, como José Joaquim Favas Cabelo, Gabriel Ferreira e António Costa, vindo, mais tarde, o primeiro a substituir Jorge Chaves, e ainda Ângelo Raposeira, António Ferreira Simões (Mano Velho) e Joaquim Ribeiro, que se fizeram notar pela sua ajuda e empenho.